
Mergulhei fundo em Feliz Ano Velho, escrito por Marcelo Rubens Paiva, por indicação da escola no ensino médio. Virar as páginas daquele livro foi um choque de realidade para minha adolescência. A história daquele jovem que, aos 20 anos, saiu tetraplégico de um mergulho em águas rasas só não foi mais aflitiva que a sensação de afogamento por sobreviver ao desaparecimento do pai, o engenheiro e ex-deputado Rubens Paiva, durante a ditadura militar. Por maior que seja a minha sensibilidade e empatia, não consigo até hoje dimensionar a dor. A angústia. O vazio. O sufocamento.
Da água para o fogo. Eu devia ter pouco mais de 20 anos quando recebi a noticia de que meu primeiro sobrinho havia sofrido um acidente doméstico. Criança traquina, Fellipe brincava no quintal da casa da avó quando avistou uma garrafa vazia de refrigerante. Teve a ideia de acender uma bomba – tida como inofensiva e batizada de traque bebé –e jogou no interior da garrafa. Inocente, ele não sabia que o recipiente tinha resto de gasolina.
Não vi a explosão, mas a bomba foi detonada em mim quando recebi a notícia. Uma queimadura. Grave. No rosto. Felipe tinha sido levado para o hospital às pressas. Gelei. A extensão da lesão foi tão grande que era preciso morfina para que ele suportasse os curativos. Nossa dor maior era saber que ele corria risco de perder a visão.
Foi desesperador. No longo e traumático período de internamento, um livro fez parte do protocolo de tratamento. Sem poder enxergar, a minha leitura em voz alta era sua distração favorita. Li alguns, mas um em especial se tornou marcante. Marcelo Marmelo Martelo, de Ruth Rocha. Não tinha este livro em mãos; fui resgatando da lembrança trechos da história que eu amava na infância. A tentativa de distrair a dor deu certo. O choro e gritos silenciavam para meus flashes de memória. Comprei um exemplar na condição de que entregassem com a maior brevidade possível no hospital.
Não estava presente na entrega. Chorei quando minha irmã contou que, ainda sem enxergar, ele não deixou que ela abrisse de imediato o presente. Pediu para segurar o pacote, tateou com calma a embalagem… Depois de aberta, continuou alisando o livro que, nas outras visitas, eu gastei os dedos e a voz passando as páginas em looping.
Lipe era apaixonado pelas traquinagens poéticas de Marcelo, o personagem mais divertido de Ruth Rocha que gostava de reinventar os nomes das coisas. Ele saudava o novo dia com “bom solário”, dizia que “cadeira” não tinha cara de cadeira. Então, por que não chamá-la de “sentador”? E, se a gente pensar bem, não é que leite devia se chamar mesmo “suco de vaca”?
A leitura tinha efeito calmante. E quando Lipe não parava de chorar, lá ia eu ler mais uma vez. Conhecia a história de trás para frente.Não esqueço a queixa dele quando usei a criatividade na tentativa de esticar a narrativa.
– Tia, essa parte você inventou. Não tem isso no livro, não.
Os livros têm muito mais. A literatura não tem a obrigação de salvar ninguém, mas um livro invade, preenche e atravessa. É capaz de resgatar, acudir, de sacudir a alma de quem o carrega inocentemente no colo. Tira o chão. Mantem a gente de pé quando tudo parece perdido. Embevece. Eleva. Livro acalma. Informa. Reforma, no melhor sentido da palavra. Diverte. Enriquece vocabulário. Inquieta. Faz a gente viajar sem sair do lugar. Livro aconchega. Muda a paisagem. Amplia nossa visão de mundo. Esquenta e também pode fazer desaguar. Ilumina consciências. Carrega verdades sobre o autor, o leitor… sobre a vida! É passatempo, mas não permite que o tempo apague memórias. Pessoais e coletivas. Livro é arma para quem sabe o poder do conhecimento.
Não li Ainda estou aqui, mas claro que o livro está na minha lista de desejos desde que assisti ao filme que acaba de ganhar três indicações históricas ao maior prêmio do cinema mundial. Protagonizado por Fernanda Torres e dirigido por Walter Salles, o filme é uma adaptação da autobiografia de Marcelo Rubens Paiva, mesmo autor de Feliz Ano Velho, em memória e honra à sua mãe, Eunice Paiva, uma advogada que acabou se tornando ativista política depois do desaparecimento do marido.
Contada com uma delicadeza inesperada, a história desta família é reflexo das brutalidades do Brasil nos anos 70. Espelha o drama de outras anônimas Eunices, Rubens e crianças que sofreram com o desaparecimento de familiares durante os anos sombrios da ditadura. O biografado do meu livro A Luz da Maternidade, o médico baiano Gerson de Barros Mascarenhas chegou a ser preso pelos ideais humanitários que defendia. “Prisão é a pior coisa do mundo. Não precisa o sujeito ser maltratado para ser um sofrimento terrível. O isolamento em um cubículo já é uma morte”, definiu em uma das entrevistas concedidas em vida. Se vivo estivesse, estaria prestes a completar 110 anos.
O medo de ter o pai arrebatado de novo pelos militares fez com que a família decidisse enterrar toda sua biblioteca socialista enquanto ele estava preso. Títulos importantes de medicina com capa vermelha – confundidos pelos inquisidores como leitura subversiva – tiveram o mesmo buraco como destino. Embrasaram em menos de uma hora em uma cova aberta no sitio da família. “Meu pai levou o resto da vida se lamentando. Era como se tivessem amputado uma de suas pernas”, me relatou o filho Claudio Mascarenhas.
Tortura. Prisão. Censura. Exílio. A violência destes termos pode não ser bem compreendida por quem não viveu este capítulo triste da nossa história. Livros, como Ainda Estou Aqui, têm caráter educativo. É preciso engrossar o coro da “ditadura nunca mais”. O sucesso do filme alimenta nossa esperança de que a civilidade vence a barbárie.
Emblemático que todo esse merecido reconhecimento internacional aconteça neste momento em que o mundo flerta descaradamente com o autoritarismo. Para mim, uma das cenas mais marcantes do filme é quando a família posa diante de um fotógrafo para um veículo de imprensa que tinha expectativa de capturar uma imagem com semblante de pesar. Nós vamos sorrir, é a resposta de Eunice Paiva.
De outro plano, Eunice Paiva segue abraçando os cinco filhos e os ensinando a resistir a toda forma de violência. Depois do sequestro e morte, o silenciamento continuava sendo uma violência. O luto e a luta pelo reconhecimento da morte de Rubens Paiva duraram mais de quatro décadas. Eunice recebeu a certidão de óbito do marido 25 anos depois do desaparecimento, em 1971. Só agora a nova versão do documento declara que Rubens Paiva teve morte “não natural, violenta e causada pelo estado brasileiro”. Que seja atestado de um Feliz Ano Novo! E não só para a família Paiva.
*Texto publicado no portal BAdeValor em 31 de Janeiro de 2025
Fernanda Carvalho é jornalista, escritora, autora do Livro A Luz da Maternidade – Relatos de Parto sem Dor conduzidos por Gerson de Barros Mascarenhas.
E-mail: livroaluzdamaternidade@gmail.com
Instagram: @fernandacarvalho_cs