
Ela ultrapassou os oitenta. Perdeu alguns centímetros em alguma curva da vida, enfraqueceu a silhueta, ganhou fendas na face e continua linda. E não só aos meus olhos. Os cabelos sem um fio de névoa – pincelados duas vezes ao mês – brilham como de boneca. Promete que se chegar aos 90 anos, vai assumir os brancos. Eu duvido. Diante do espelho, reclama que está murchando; só vejo o amor florescer.
Ele esconde o rosto toda vez que insisto em uma foto. Até nas selfies a portas fechadas, não mostra a face. Já avançou a minha altura e não parece disposto a parar de crescer. Foge do meu chamego. Sofre do desgosto musical típico da adolescência. À boca miúda, endossa o coro quando ouve comigo o melhor da MPB. Antes tão falante, agora é monossilábico. Insiste no preto, monocromático também.
Ela reclama porque não sai mais como antigamente. Ele está aprendendo a desbravar o mundo, de preferência de uber. Ela gostava de bater perna na Avenida Sete. Cheia de acessórios dourados, para meu desespero. Ele prefere um rolé no shopping com os amigos e o inseparável fone de ouvido. Nas alturas. Ela não dá ouvidos ao meu excesso de cuidado.
Não importa o destino, até voltarem para casa, meu coração fica estreito. Comprimido. Aflito por quem veio antes e pelas vidas que brotaram depois, de mim. Geração sanduíche. Alguém definiu. De imediato, me reconheci: espremida entre duas beiradas da vida. Pressionada pelos afetos e degustando o sabor de ser recheio da existência. Ponte entre extremos, de quem, ao poucos, vai se despedindo da autonomia e, do outro, tenta conquistá-la.
Há dias em que me sinto mais dividida. Entre boletins, médicos e contas. Tentando equilibrar pratos invisíveis, não sei se dou colo ou se reivindico o meu. Vigio as duas pontas, tentando não descuidar de mim. Driblo o peso no peito se demoram a mandar noticias. Disfarço o frio na barriga, busco coragem para assumir a covardia. O medo de perdê-los. Se pudesse, viveriam em uma redoma de cristal. Como não posso, respiro bem fundo, na tentativa de alinhavar o temor à esperança.
Sempre que ouço um lamento de minha mãe sobre o envelhecimento, imagino que não deve ser fácil. Encaro de longe a velhice, não como um problema. Um privilégio. Olho para minha mãe e cuido dela, sou eu amanhã. Olho para meus filhos, sou eu de novo. Agradeço o merecimento de tê-los juntos mais um dia. A noite é curta e não traz a certeza de que beijaremos o sol na manhã seguinte. Nem nossos amores. E essa verdade independe do correr dos ponteiros.
*Texto publicado em 5 de setembro de 2025 no Jornal Correio*
Fernanda Carvalho é jornalista, escritora, autora do Livro A Luz da Maternidade – Relatos de Parto sem Dor conduzidos por Gerson de Barros Mascarenhas.
E-mail: livroaluzdamaternidade@gmail.com
Instagram: @fernandacarvalho_cs
Feliz observação do processo da caminhada individual e coletiva, dependência, alegrias e dificuldades da convivência ,para um único objetivo EVOLUIR .
Morei com minha mãe nos últimos dois anos de sua vida. Uma coisa boa que a pandemia me proporcionou. Foi um previlégio ter tido esta experiência com ela e poder compartilhar vários momentos e sentimentos. Algumas vezes ela acordava pela manhã e dizia “Pensei que o mundo tinha acabado, mas não acabou.” Comentava que já não tinha motivo pra vivier. Penso que ela viveu do jeito que pôde e quis, destemidamente. Ela se foi aos 75 anos por complicações do diabetes.
Belamente escrito, exala a poesia da existência, do afeto e da sensibilidade…