
Eu tomava o café da manhã sozinha em casa quando levantei da mesa correndo em direção à janela. O dia lindo, com sol majestoso e céu cor de azulejo, não era o único convite para eu ir até a varanda. Bolhas de sabão surgiam na paisagem. Lindas, encantadoras… Mágicas! Algumas maiores; outras quase imperceptíveis. Poucos vizinhos devem ter tido a oportunidade de percebê-las. Que alegria é enxergar os detalhes que colorem a vida logo cedo. Pensei já viajando para meu tempo de criança quando sonhava, sentada na calçada – de canudo e canequinha – com uma boneca. Tubefe, Tublim….
Diante daquela cena – as bolinhas de sabão reais – de tamanha simplicidade, eu ainda tentei correr para pegar o celular e registar. Voltei segundos depois e as bolas já tinham escapado ao alcance dos meus olhos. Estiquei o pescoço para ver se conseguia encontrar vestígios do apartamento que fez a felicidade respingar em mim… E nada. Água e detergente foram suficientes para me transportar para um tempo de fantasia. Sem esquecer o elemento essencial: o sopro de alguém, possivelmente uma criança.
A minha menina queria ver mais, continuou à espreita. Parada. Em um acanhado êxtase, longe da aceleração que insiste em se tornar rotina. Os segundos de encantamento foram suficientes para ocupar a categoria de pausa nutridora, que a minha psicóloga tanto insiste comigo. Posso contabilizar as bolinhas de sabão, pensei. A voz interna que me servia de consolo, trouxe outra verdade. O registro no celular era desnecessário.
O momento já estava eternizado em mim. Verdade, respondi ao monólogo. Que loucura esse tempo moderno em que a gente deixa de viver o presente na ânsia de garantir registros para o futuro. Os celulares estão abarrotados de fotos que não são reveladas, de vídeos de fragmentos de espetáculos que a gente não assiste depois. Perde o tempo real, presente na expectativa de um replay futuro. E, assim, vamos acumulando memórias empoeiradas, consumindo gigabytes que aparelhos ultra tecnológicos não dão conta, comprando mais espaço na nuvem na esperança de arquivar o tempo que se se esvai como bolha de sabão.
Não consegui registrar a cena, mas as bolhas de sabão continuaram borbulhando em mim.
– O escritor precisa furar a bolha!, disparou Dany Sakugawa, em uma jornada voltada para autores e profissionais do mercado literário que encheu meu sábado de inquietações e certezas. E aumentou a lista do tanto que ainda tenho por fazer para fazer meu livro chegar no colo de novos leitores. A primeira grande bolha que precisei estourar foi voltar a acreditar no meu sonho. Romper com a síndrome da impostora que me paralisou por anos. Aliviar o medo, me esvaziar das desculpas. Confiar que era capaz de quitar a dívida de gratidão ao obstetra que me ensinou a parir com delicadeza, no êxtase de quem desfruta do parto como um momento efêmero e sempre único, como uma bolha de sabão.
Despois de parir o manuscrito – sim, escrever é parir! – conseguir uma editora foi uma façanha comemorada com a alegria da criança que estourava mais uma bolinha de sabão. Tirar o livro da gaveta de sonhos e conseguir publicá-lo. Pfuft! Mais uma! A gente desperta da fantasia quando descobre o que livro não se vende sozinho. Precisa ser regado dia a dia, demanda atenção e energia. Poucos dias depois da noite inesquecível do lançamento, eufórica e ainda me sentindo de resguardo, eu já sabia que tinha mais um filho para cuidar.
Não se iludam. Quem tem coragem para viver da escrita tem bolhas nas mãos, de um trabalho que caleja. Se o escritor não tiver resiliência para furar novas bolhas, os livros ficam empoeirados, agora em caixas. Alcançar o leitor exige conhecimento e muita dedicação. Fôlego para correr atrás de cada indício de borbulha, perseguir o rastro da inspiração, coragem para aprender a vender sua ideia, vencer a timidez para entrar nas rodas de conversa, bater perna em feiras literárias. O movimento é exaustivo e nem sempre revertido em vendas. Mas o brilho nos olhos é garantido.
E aumenta quando, de repente, a gente se dá contaque está compartilhando a mesma bolha, com quem tem o mesmo propósito, uma disposição invejável para seguir com alegria a jornada árdua de semear o gosto pela leitura. Pesquisa recente revelou que quase sete milhões de leitores se esvaíram como bolas de sabão nos últimos quatro anos. Mais da metade dos brasileiros não leu um livro sequer, em um ano inteirinho.
Na contramão da estatística, uma legião de autores insiste em escrever uma nova história. A escrita é revolucionária. Escritor independente, então. É raiz. Resiste às intempéries e segue adiante… Alguns, como a escritora e amiga Katiana Rigaud, não se contentam em carregar apenas seus livros, aumentam o peso e levam o sonho de outros autores por aonde vão. A idealizadora da Raiz Livraria é a imagem encarnada da “Sororidade Literária”. Com amorosidade entre os cachos, nas asas da literatura, celebrou recentemente a participação inédita na Festa Literária de Paraty (FLIP), uma das mais disputadas do país. Aparentemente sem rumo, com muita intenção, ela segue expandindo horizonte para novos escritores como se livros fossem leves … quem sabe bolinhas de sabão.
“Olha a bolha de sabão
na ponta da palha:
brilha, espelha
e se espalha.
Olha a bolha!”
Trecho do poema Bolha, de Cecíclia Meireles
*Texto publicado no portal BAdeValor em 27 de Novembro de 2024
Fernanda Carvalho é jornalista, escritora, autora do Livro A Luz da Maternidade – Relatos de Parto sem Dor conduzidos por Gerson de Barros Mascarenhas.
E-mail: livroaluzdamaternidade@gmail.com
Instagram: @fernandacarvalho_cs