
Apertada. Justa. Com o zíper quase estourando. O alívio era estar entre amigas. Daquelas para todas as horas, que compartilham confidências e o guarda-roupa. Emprestam um jeans – mesmo que de numeração inferior – elevam seu amor próprio e te resgatam para lampejos de alegria.
Em um cenário vestido de liberdade, ríamos e nos desafogávamos. Rodeando a mesa de um bar – o GPS não localiza o endereço no meu passado – tínhamos a brisa do mar como companhia. O sol afagava a pele, de dentro para fora. A presença não era disputada por qualquer equipamento eletrônico. Erámos só o barulho das ondas e risos. E isso era tudo que precisava. Sorrisos largos do tempo de adolescência, sem juros nem mora. Sem boleto a vencer. Só devia obediência e respeito a meus pais…
Não precisava pensar no almoço de logo mais, na lista do mercado, no banho e tosa de Nick… se os filhos conseguiram desapegar da cama e cumprir suas atividades. Putz…. Hoje é dia cinco? Esqueci do condomínio. Será que segunda ainda consigo pagar com desconto pontualidade? Também fiquei devendo um release. Vai dar tempo?
O som estridente do telefone – fixo, com alguns metros de fio – me resgatou antes que fosse tragada pelos pensamentos. Já notou que só de tentar não pensar, eles nos invadem em enxurrada? Uma correnteza de preocupações. Do outro lado da linha, ouvi o choro do meu caçula. Aquele pranto sofrido de quem perdeu a mãe pela eternidade de alguns instantes. E a voz doce do meu pai. Fechei os olhos e pude sentir a cena. João no colo do avô. Com pouca idade, dentes pequenos, cabelos com cachos dourados, pareciam feitos um a um, a dedo. Aquela cabeça branca, alva como as nuvens, e mãos doces, lambuzadas de afeto. Calejadas o suficiente para saber que melhor que puxar orelha de criança, é acariciar. Eu amava essa mania de meu pai. Até hoje transbordo pelos olhos se alguém toca em minhas orelhas.
Na autoridade de pai, ele me convoca carinhosamente a voltar para casa. Silêncio, quase ruído. Doído. Voltar no tempo é tudo que eu mais queria. O eco da ausência me tira o volume. O que mais machuca é o não vivido. Não só por mim, mas por meus filhos na correnteza dos dias que seguem sem ele. Na fronteira entre a partida e a chegada, desencontro. A falta do avô é eterna realidade para Lucca e João. Herdaram apenas as migalhas de memórias que consigo passar adiante. Meus filhos mereciam viver o significado da palavra avô.
Era sábado. O combinado era de um final de semana de alforria. Decidi voltar para casa antes do previsto. A viagem me renovou. Abri os olhos. Úmidos, prontos para enfrentar a jornada árida de três turnos, de um dia qualquer. Não era um dia qualquer. Despertei, fixei o olhar no celular para ter certeza correr do tempo. Tempo. Tempo. A data era 26 de julho de 2023. Dia dos Avós. A gente segue apesar do abismo infinito de saudade.