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Eu, sonsa essencial

Quase cinquenta anos me olhando no espelho e só agora me descubro sonsa. Não uma sonsa qualquer. Uma sonsa essencial.

A constatação me fez pesquisar explicações para a sonsice. Busquei o Aurélio, mas me contentei com o universo dos dicionários digitais de referência. Será que léxicos de papel ainda sobrevivem? Caldas Aulete – para mim um ilustre desconhecido – trouxe respostas. Substantivo diretamente ligado à dissimulação. Alguém com esperteza oculta ou maliciosa. Com habilidade para fingir. Ou para agir com falsidade.

Que o professor, gramático e lexicógrafo português perdoe minha ignorância. Foi a leitura da crônica Mineirinho, de Clarice Lispector, que fez cair a ficha da minha sonsice. Desmoronar as certezas. Cada palavra impressa naquele papel foi capaz de fazer rever o meu lugar. Na vida. No mundo. Distorcer a imagem, encarar meu reflexo. Desbotado. Em poucas páginas, me revirei por dentro. Lancei novo olhar para a paisagem social.

Definitivamente, eu era sonsa. Falsa. Fingida. Simulando sofrimento diante da violência que assola o terreno onde piso com medo. Basta uma faísca para acender o rastilho de pólvora. A dor não parece real até que ronde minha casa, arrombe a porta. Até que a bala perdida alcance um conhecido, ameace alguém da família. Somente quando a estatística se aproxima, a violência nos atinge com exatidão. No alvo. Só aí sentimos a silenciosa compaixão da revolta.

De longe, todo absurdo é normalizado até o próximo meme. O mais brutal dos feminicídios mergulha na amnésia coletiva diante da próxima tragédia em nome do “amor” pisado. A pior das catástrofes é esquecida com outra manchete sangrenta. A verdade é que eu – e também você – banalizamos as atrocidades cotidianas. Não adianta fazer cara de paisagem, disfarçar com “falinha mansa”, ter o discurso vazio a favor dos direitos humanos. A fantasia da inocência já não nos cabe. Ainda assim, insistimos em vesti-la. Somos todos sonsos essenciais.

Escrita por encomenda na década de 1960, a crônica Mineirinho segue cortante. Indigesta. Por aqui, temperada com dendê e axé, baianinhos seguem sendo dizimados. Incontáveis tiros derrubaram os que atravessam a barreira dos sonsos essenciais para serem rotulados como doentes do crime. Constantemente, membros da fictícia facção PPP. Pretos. Pobres. Periféricos.

Do outro lado, outra tropa de baianinhos, vestidos de justiça, parece ignorar que somos todos perigosos em potencial. Imbuídos do lema de servir, colocam a vida em risco para defender a sociedade de uma guerra que também os faz vítimas. Armados e legitimados cumprem sentença prévia nas ruas. E, quando saem vivos do combate, arrastam o peso dos óbitos existência afora. Crimes particulares, longamente guardados.

Enquanto uma nova casa não é erguida, cada um dos sonsos essenciais tenta sustentar seu terreno. Anestesiados, é mais fácil encontrar uma sombra. Um refúgio. Dormimos e falsamente nos salvamos. Deixamos o medo no colchão para encarar o dia seguinte.

Por favor, permita-me que me apresente. Sou mulher, branca, nem rica nem pobre. E aparentemente de boa vontade. Gosto de livros, de gente, de borboletas. Preciso da literatura para me manter sã. Os devaneios são uma válvula de escape para as trágicas armadilhas. O propósito do jogo me confunde, ainda desconheço as regras. Deslizo nas incertezas. A casa treme. Não só de vez em quando. Mas, sempre que tenho coragem, volto a encarar meu reflexo. É hora de mudança. As bochechas caídas não me agradam. Prazer em te conhecer, sou a sonsa essencial.

Texto publicado em 1 de agosto de 2026 pelo Correio*!

Fernanda Carvalho é jornalista, escritora, autora do Livro A Luz da Maternidade – Relatos de Parto sem Dor conduzidos por Gerson de Barros Mascarenhas

E-mail: livroaluzdamaternidade@aluzdamaternidade

Instagram: @fernandacarvalho_cs

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