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Vida Leve

Era uma sexta-feira. Fim de tarde. Não quis adiar a consulta. O peso que carregava não dava para mensurar na balança.

– Você está com 43 anos, mais de 90 quilos, hipertensa. Já é diabética?

A pergunta me tirou o chão. Visualizei a insulina me aguardando na próxima esquina se continuasse com as mesmas escolhas. Saí do consultório determinada a cuidar mais de mim. Mantive o compromisso de um aniversário e lá me dei conta do tamanho da dificuldade. Nada do que fora servido cabia no meu novo plano alimentar. Meu filho caçula tentou me consolar.

– Mãe, você pode começar a dieta na segunda.

Ele não entendia o senso de urgência que gritava no meu corpo. Foi difícil reaprender a comer. Está sendo… Há anos tento educar minhas papilas gustativas para o que é saudável. E também saboroso. Já aprendi a apreciar o colorido das saladas e verduras, cereais integrais, sucos detox. Consegui fazer do sumo de limão com água com gás um delicioso acompanhamento para meu hambúrguer preparado com grão de bico.

Aprendi que tão importante quanto comer menos e com mais qualidade é carregar o balde. Com suor, de preferência. Praticar atividade física foi, aos poucos, me resgatando. Mesmo quando voltava da academia com vontade de matar aquela loira, sarada e sem noção, que pedia para eu ter cuidado com o bebê. Como ela não entendia que o projeto era justamente abortar o excesso de fofura abdominal? A culpa não era dela, nem de quem já me deu preferência nas filas de restaurantes. Pelo menos, perdia um pouco do apetite com o constrangimento transbordando do prato.

Cada um sabe, da gordura para dentro, as lutas que enfrenta. O peso das escolhas, crenças e processos. Mais do que estética, minha questão é saúde. Quero ter longevidade e qualidade de vida, de preferência, na mesma frase. Busco coragem para me despir do sedentarismo. Uma prática de Yoga desperta músculos e sossega minha mente acelerada. Correr atrás de uma bolinha no Beach Tennis me dá energia. Com o remo, o mar é curativo. A cada hip, dores e angústias vão ficando para trás. Nunca tomei água com açúcar; água salgada me acalma.

SINCRONIA!!! O grito de quem comanda a equipe de remo me lembra de manter a harmonia fora d´água também. Aprendi a lidar até com as enchentes alheias, com pessoas áridas que, por vezes, nos inundam. Não esqueço a fala de um dos primeiros instrutores.

-Quem não sabe voltar sozinha para a canoa não mergulha para não atrapalhar a aula.

Mergulhei. E contei com mãos solidárias para ocupar meu banco de volta. Notei que uma aluna antiga nunca teve coragem para o delicioso tibum. Remei de volta pensando na postura de um líder: alguém que ensina, incentiva e vibra junto quando aprendemos! Antes do próximo treino, fiz uma crítica reservada ao professor. Prometeu ter mais cuidado com as palavras. Justificou que a rotina era árdua. Para mim, a canoa é puro deleite. É sempre um bom exercício a gente se colocar no lugar do outro.

Na aula seguinte, mergulhei de novo em alto mar. Subi na canoa sozinha com a força do ódio. Às vezes, ela nos impulsiona também. Lembrando o pensamento de Rubem Alves, “há escolas que são gaiolas; e há escolas que são asas”, voei para outra canoa. A que me acolhe agora é batizada de Vida Leve. Juntos é mais importante do que forte!, o lema de um atleta que dividiu a voga comigo recentemente segue reverberando por aqui. Na canoa e na vida, sigo de alma lavada. E salgada!

Fernanda Carvalho é jornalista, escritora, autora do Livro A Luz da Maternidade – Relatos de Parto sem Dor conduzidos por Gerson de Barros Mascarenhas.
@fernandacavarlho_cs

1 comentário em “Vida Leve”

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