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A menina e as estações

Chegou para essa viagem em um dia mais longo e luminoso driblando o poente da vida. Foi gestada em um hospital, com a promessa de adiar o adeus a um amor que ainda nem conhecia.  Titubeava nos primeiros passos quando se despediu daquele colo quente, protetor. Não tem memória do último adeus, mas a morte se tornou um silêncio assustador. Um inverno que sempre se fez presente.

Na primaveril adolescência teve que aprender a administrar a falta dos pais. Não definitiva; para viver tempos felizes na casa das primas. Talvez por vergonha de admitir o apego, só aceitava os convites tentadores quando não dava mais para escapar. De dia era mais fácil disfarçar o coração apertado. À luz apagada, a saudade embalava a insônia. Não sabia nomear aquela angústia que impedia que o sono repousasse em seu travesseiro. Enquanto todos dormiam, a madrugada se arrastava como os gatos, que faziam barulho no telhado. Até que os miados cediam espaço para os primeiros raios de sol.

Luz e sombra. A menina foi aprendendo, aos poucos, que a vida é feita de contrastes. Na primeira viagem de avião, descobriu que o apertar do peito não acontecia só com os pais. Eles estavam contentes por visitar o filho que morava longe. A euforia do primeiro voo foi chamuscada por um choro convulsivo na decolagem. O pranto chamou a atenção dos passageiros. O pai tentou dar borda, acalmar a menina. Julgou ser medo de avião. Entre soluços, ela revelou o motivo do choro: deixar a irmã do meio para trás. Um mês depois, na viagem de retorno, o choro brotou no caminho inverso. Mais contido. Sentido.

A menina bem que gostaria de emoldurar as estações apenas com dias solares, definitivos. Mas aprendeu que, por mais luminoso que esteja o momento, a paisagem muda. Invariavelmente. Ninguém congela o tempo. Só de tentar, já ficou embaçado. E o medo do período enevoado não impede que as nuvens se acomodem no céu. A impermanência não é ameaça — é a constância da vida impondo seu movimento. Como a natureza, somos feitos de estações. Somos. Passageiros. Tudo passa. Tudo. Inclusive nossos estados emocionais. Mesmo que a menina não goste de todas as estações. Em nenhuma delas, a vida estaciona, permanece inerte. Querendo ou não, o vento sopra. A brisa que acaricia a face, logo mais reivindica agasalho. Ora com suavidade, ora com rajadas. Vendaval. Para sacudir a poeira da existência.

O calor do verão um dia esfria… As flores da primavera também têm seu tempo de recolhimento.  Colher a fruta do pé, por vezes, exige paciência para além do outono. Por mais rigoroso que se apresente, o inverno não vai durar para sempre. Ao sabor do vento, a menina relembra a alegria da infância de quando inaugurava o guarda-chuva no corredor de casa, flanando entre os respingos que brotavam do telhado.

Toda vez que choveu, parou. A menina já não clama que o verão dure para sempre. Apenas abre as janelas quando os raios de sol chegam. E quando partem, agradece pelo calor que ficou na memória. Ela já aprendeu a acender o sol dentro do peito.

 O vento, que embala todas as estações, sussurra:

– Menina, não brigue com o tempo. Deixe-se guiar pelo sopro divino!

Texto publicado em 20 de Fevereiro de 2026 pelo Correio 24 Horas!

Fernanda Carvalho é jornalista, escritora, autora do Livro A Luz da Maternidade – Relatos de Parto sem Dor conduzidos por Gerson de Barros Mascarenhas

E-mail: livroaluzdamaternidade@aluzdamaternidade

Instagram: @fernandacarvalho_cs

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