Tem livros que parecem que foram escritos para mim. Leio devagar, evitando o ponto final

Espero que sim… Que, em algum momento da vida, você já tenha sido afagado pelas palavras. Sejam elas de um livro para as infâncias ou para adultos. Pouco importa o gênero: romance, crônica, conto, poemas, fábulas, mitos, lendas ou contações de histórias que sobrevivem ao tempo através da oralidade.
Minha relação com os livros começou na infância. Um misto de mistério e fantasia. Para além da ludicidade, o livro já foi escudo para mim. Em um tempo que ainda não existia Código de Defesa do Consumidor e alunos eram retirados da sala de aula em dias de prova, a biblioteca era meu refúgio para a inadimplência. Escondia a face rosada de vergonha entre as páginas. Guardo até hoje o olhar sereno da bibliotecária que me acolhia.
Meu pai que, na época fazia malabarismo para que eu estudasse em escola particular, sempre foi meu maior exemplo para a leitura. Em casa, estava sempre com livro em mãos. Os de Jorge Amado causavam gargalhadas. Eu herdei o gosto pela leitura que transbordou para a escrita. E, por isso, decidi ser jornalista.
Recém-formada, atuando como repórter aqui neste jornal, ele era meu revisor preferido. Lia com orgulho meus textos. Mostrava a assinatura no jornal impresso como quem ostentava um troféu. Foi no CORREIO que tive a alegria de entrevistar Bety Coelho. Encantada com suas contações, acabei participando de um curso dela em uma biblioteca pública. A magia das histórias fazia aquela senhora ter vigor e brilho nos olhos de menina. Anos mais tarde, o parto do meu primeiro livro, me aproximou definitivamente do universo literário.
Estar entre livros me faz mais feliz. Eu já estive longe deles. Na rotina atribulada de mãe e profissional, limitava-me a leituras técnicas. E olhe lá. A literatura foi se aproximando de mansinho, com uma fileira de escritoras baianas talentosas da literatura infanto-juvenil querendo me contratar para divulgar suas obras. Elas foram doulas do meu nascimento literário.
Hoje confesso certa compulsão. Compro mais do que posso ler. O apartamento reclama falta de espaço. Tem livros que parecem que foram escritos para mim. Leio devagar, evitando o ponto final. Acarinham, consolam, fazem enxergar a vida de outra perspectiva. E nem sempre isso é fácil. Uma leitura me tirou o chão, provocou vômito e me deu coragem para encarar a mudança que eu tanto precisava. Já naveguei em muitas páginas para não me afogar em angústias. Há livros que apertam a mente, inquietam. Outros sossegam. Fazem sonhar de olhos abertos.
Foi dessa paixão pelos livros, pelas palavras, que nasceu meu interesse pela Biblioterapia. Sinto um desejo latente de compartilhar com outras pessoas o acolhimento que a literatura trouxe para minha vida. É uma oportunidade preciosa mediar vivências, conduzir leituras em voz alta, compartilhar textos cuidadosamente selecionados de acordo com a temática e o público do encontro. É um trabalho sutil e – ao mesmo tempo – potente, que pode ser melhor compreendido por quem se permite desfrutar da experiência.
Já tentou explicar o cheiro de uma rosa para alguém que nunca esteve perto de uma? É o que acontece com a Biblioterapia. O processo é tão mágico que pessoas não alfabetizadas saem igualmente nutridas das vivências. Não é preciso saber ler para sentir o valor das palavras. Definitivamente, leitura é um remédio soberano.
Texto publicado em 20 de abril de 2026 no Jornal Correio
Fernanda Carvalho é jornalista, escritora, autora do Livro A Luz da Maternidade – Relatos de Parto sem Dor conduzidos por Gerson de Barros Mascarenhas
E-mail: livroaluzdamaternidade@aluzdamaternidade
Instagram: @fernandacarvalho_cs